Autoria de Lu Dias Carvalho
Recentemente escrevi o livro de memórias de minha encantadora tia Davina, intitulado “Marcas de Minhas Vivências”, para comemorar os seus 96 anos de vida. Nem é preciso dizer que naveguei por um mundo desconhecido, principalmente ao relatar o período de sua infância e juventude. Numa de suas passagens, conta a minha tia que, naqueles tempos, acreditavam os pais e avós que botar uma lagartixa viva dentro de uma panela com água fervente e depois tomar o caldo impedia a criança de ter sarampo, doença que fazia muitas vítimas entre os pequeninos. Eu fiquei matutando na matança dos inocentes bichinhos, aos quais imputavam um poder curativo que não tinham, e no sofrimento das crianças, entremeado pela repugnância, ao tomar o bizarro líquido, e na compaixão que sentiam por aqueles serzinhos indefesos. Tudo não passava de uma crença que, passada de boca em boca, atingira toda a comunidade e adjacências. As lagartixas morriam cruelmente por causa de um mito.
As crenças estão presentes em toda a história da humanidade. Aquele que ousa navegar pelos costumes antigos, mais especialmente pelos da Idade Média, depara com um sem conta de absurdos, embora ainda os tenhamos nos dias de hoje, só que em escala bem menor. Quem nunca ouviu falar que a nudez era vista como pecaminosa? Aquele que ficasse nu estava predisposto a ser moradia dos maus espíritos que, por sua vez, eram os supostos responsáveis por toda sorte de doenças. As pessoas abominavam o banho para evitarem o contato com próprio corpo. Quem recebia a boa e salvadora água eram as mãos, rosto e pés. Assim, não é de estranhar que um cheiro nauseabundo tomasse conta de todos, pois as tais partes pecaminosas eram exatamente as que mais necessitavam de água. Assim descreveu o escritor alemão Patrick Suskind: “Fediam o camponês e o padre, o aprendiz e a mulher do mestre, fedia a nobreza toda, até o rei fedia como um animal de rapina, e a rainha como uma cabra velha, tanto no verão quanto no inverno”. Não era para menos!
O que levou homens e mulheres a esse comportamento senão a crença doentia em espíritos maus? A verdade é que esses espíritos, caso existissem, não causavam mal algum, mas a falta de banho ocasionava um sem conta de doenças. Todos seguiam ardorosamente a teoria de que a nudez “pecadora e desprezível” era a morada do mal. Somente muitos e muitos anos depois é que a Ciência explicou que os tais espíritos maus não passavam de micróbios (bactérias, vírus, fungos, etc.). Naquela época, o saber, ainda que rudimentar, era privilégio de uns poucos privilegiados. As superstições – filhas das falsas verdades, advindas da falta de embasamento científico – grassavam como areia no deserto. Se ainda hoje, com as Inteligências Artificiais (Gemini, Copilot, DeepSeek, chat GPT, etc) pululando pelo planeta Terra, existem aqueles que se apegam às crenças e superstições, sem delas arredar pé, o que teria sido nos tempos idos? Havia tantos enganos quanto o número de estrelas no céu. A verdade nua e crua é que cada época tem o seu rol de nonsense, a exemplo da era vitoriana, período em que os médicos – sim, os médicos – alertavam as mulheres para o perigo de lerem romances e ficarem estéreis ou loucas. O mais engraçado é que aos homens tais leituras nenhum mal faziam.
Fonte de pesquisa: O Animal Social – Elliot Aronson e Joshua Aronson
Views: 0







